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FORMAÇÃO

 Jesus Cristo  -  2014

SÉRIE DE TEMAS PARA CONHECER MAIS JESUS CRISTO


1  -  ABERTURA -   Conhecer, para amar mais Jesus, e servir melhor

“Jesus Cristo é o mesmo ontem e hoje, e será o mesmo para sempre”
(Hb 13,8)

“Nós o amaríamos muito mais do que amamos,
se melhor o conhecêssemos.”


Sta. Teresa d’Ávila (Caminho de Perfeição, c.30,1-5)


            Há poucos anos comemorávamos o Grande Jubileu de dois milênios do nascimento de N.S.Jesus Cristo. Ingressamos num novo milênio, o terceiro milênio. No início deste terceiro milênio, o Papa São João Paulo II  -  papa à época, nos últimos anos de sua vida, já com combalida saúde física  -  entregou à Igreja uma Carta Apostólica na qual conclamou os cristãos católicos a mergulharem mais profundamente no conhecimento e seguimento de Jesus Cristo, único modelo e Caminho para o Pai. Tratou de orientar os fiéis para os seguintes focos em sua vida espiritual:
                        - voltar a Cristo, partir de Cristo
                        - voltar ao Evangelho
                        - voltar ao Concílio Vaticano II.
            É sempre tempo de nos engajarmos nessa importante proeza espiritual que é a nossa ‘conversão’ e vivermos a ventura da graça. Uma renovação espiritual que se funda num processo iniciado em um encontro existencial marcante com Jesus Cristo. Dele receberemos a força do seu Espírito, a garantia do serviço que devemos prestar à humanidade.
            Façamos como o papa nos pediu: “partir de Cristo”, nós que igualmente já desejamos isto quando aderimos a viver a Regra do Carmelo e nossas Constituições “vivendo em obséquio de Jesus Cristo”. Também nossa Santa Madre Teresa de Jesus quando insistia ser a santa humanidade de Cristo como essencial à vida espiritual, pois ninguém vai ao Pai senão por Ele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Ele nos introduz no mais íntimo do mistério de Deus Trindade, e é Ele  -  Deus mesmo feito homem  -  que é o coração de nossa vida.
            Todos, mesmo os incrédulos, podem conhecer a vida de Cristo e escutar a sua mensagem de salvação. Todos os cristãos, de qualquer denominação de que participem são chamados pelo Evangelho para viverem com Jesus o mais perto possível, em Jesus.
            Quem sabe, esses pequenos textos, que agora introduzimos, não seriam a ocasião de outros tantos novos encontros com o Senhor Jesus? Encontros e reencontros de aprofundamento. Estímulos a uma oração pessoal mais íntima “com Quem sabemos que nos ama” e com Quem desejamos estreitar os laços mais e mais.
            Quem sabe, também não seriam esses pequenos encontros outros “pontos de partida” para um diálogo evangelizador junto aos irmãos que nos rodeiam?
            De início, uma pergunta nos deve inquietar: por que sou cristão?
Quem sabe dessa talvez incômoda questão sentiremos rejuvenescer a nossa fé batismal, decisória!, desembaraçada de tantas acomodações da cultura dominante  -  inclusive a eclesial  -  e da rotina da vida, que aderem à nossa pele e pessoa.
            Quem sabe, chegaremos a constatar e dizer com toda a verdade da alma a palavra de Pedro a Jesus: “Senhor, a quem iríamos nós, tu tens as palavras de vida eterna” (Jo 6,68) – e dizer isto como um cristão, católico e como carmelita.
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2  -  JESUS É NOSSO CONHECIDO ?   

Os Evangelhos são, sem dúvida, o documento histórico mais sério de toda a Antiguidade. Mas, se dirá talvez, são suspeitos porque foram escritos por crentes cristãos. E se justamente, só a fé permitia ver sob sua verdadeira luz o destino singular do homem chamado Jesus!

ANTES DE TUDO, COMO ELE SE CHAMA?
            JESUS (Yeshuah)
O nome dados por Maria e José
            Nome comum à época, bíblico
            Muita gente com mesmo nome, como distinguir
            Seu significado
            O CRISTO
            Cristo, Messias, expectativa de restauração de Israel
            “Encontramos o Messias” (Jo 1,41)
            “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16)
            OUTROS
            Emanuel, Deus Forte, Príncipe da Paz.


INTRODUÇÃO
Em geral, como começamos a conhecer Jesus? Não através de leituras, livros; antes, ouvimos falar dele. Pessoas crentes nos falaram dele: pais, avós, tios, catequistas, colegas de classe ou de trabalho, vizinhos e amigos, alguma vez algum padre ou uma religiosa... No meu caso, quem me falou de Jesus decisivamente e me marcou?
            É raro alguém falar de Jesus para dizer mal contra a sua pessoa. Jesus inspira respeito. A maioria lhe reconhece a coragem e a generosidade. Chistes e piadas com o Cristo não tornam honrados seus veiculadores. Revelam antes um sinal de decadência.
            Muitos dizem que admiram o Cristo, mas que a Igreja o traiu. Isto poderia parecer verdadeiro se olharmos o comportamento de cristãos e mesmo de pastores ao longo desses dois mil anos passados. Em sua carta preparatória ao Jubileu do Ano 2000 (“No ingresso do novo milênio”), o Papa São João Paulo II escreveu frases bem claras acerca disto.

VINTE SÉCULOS DE TESTEMUNHAS
            Mas, ao inverso, sem a Igreja quem conheceria o Cristo neste início do 3º milênio?
            A Igreja: quer dizer, gerações de crentes anônimos que se sucederam mas também pastores que receberam o encargo de transmitir e de anunciar autenticamente o Evangelho.
            Nós conhecemos Jesus Cristo porque outros, antes de nós, creram nele. Encontraram nele luz, força, verdade. Eles são os mais qualificados para nos falar dele. Iria eu pedir a alguém que não ama a música (ou que não ama tal música) de me fazer ouvi-la? Ainda mais, de me fazer amá-la? Acontece o mesmo com as religiões: se quero compreender qualquer coisa do Islã, vale mais escutar um mussulmano religioso do que um adversário do Islã. A fé, ou menos a simpatia, abre os olhos, ajuda a compreender. Com mais forte razão quando se trata de alguém como Jesus Cristo, o Filho de Deus Vivo, como dizia Pedro!
            Entre seus membros, a Igreja distingue alguns que chama de “santos”. São Pedro, São Paulo, São Francisco, Santa Teresinha de Lisieux, o Beato Charles de Foucauld, Santa Bernadete, Santa Teresa d’Ávila, etc.
Sobre Jesus Cristo, os santos de ontem e de hoje nos dirão sempre mais do que os livros de especialistas. Mas que isto não seja uma razão para se desprezar os estudos dos ‘experts’. Como estes conhecem, pois, Jesus? Por alusões na literatura judaica e pagã e pelos Evangelhos.

TEXTOS JUDAICOS E PAGÃOS
            Entre os judeus, poucas coisas a não ser uma passagem de um historiador judeu do 1º século, passado para o lado dos Romanos invasores, chamado Flavius Josephus:
            “Pela mesma época, afirma ele, veio Jesus, homem sábio, se devamos chamá-lo de homem. Ele realizava milagres... Era o Cristo. E desde que, sob a denúncia dos nossos primeiros cidadãos, Pilatos o condenou a crucificação, aqueles que o haviam antes amado não deixaram de o fazer. Ele lhes apareceu com efeito 3 dias após a sua morte, novamente vivo, os diversos profetas tendo anunciado essas maravilhas e mil outras sobre ele.” (Antiguidades judaicas, XVIII, 63-64).
            Alguns pensaram ser este texto elogioso demais sobre Jesus e que por isso devia ser considerado falso! A opinião dominante hoje é que ao menos o núcleo do texto de Flávio Josefo é autêntico.
            O silêncio das fontes judaicas se explica pela ruptura entre a Sinagoga e a Igreja nascente e consumada pelos anos 70. A partir daí as autoridades judaicas proibiram qualquer menção do fato cristão. Um texto tardio recolheu, entretanto, uma antiga tradição: “À véspera da Páscoa, eles suspenderam Yeshou de Nazareth, e o arauto o precedeu por 40 dias dizendo: ‘Yeshou de Nazareth vai ser apedrejado, porque ele praticou bruxaria, enganou-se e desviou Israel. Quem conhecer qualquer coisa em sua defesa apresente-se e defenda-o. Mas não houve quem o defendesse, o suspenderam à véspera da Páscoa’.”
            Os latinos não tinham razão alguma de interessar-se diretamente com a pessoa de Jesus. Os sábios de Roma não tinham grande estima pelas superstições do Oriente, entre as quais eles referiam o judaísmo, o cristianismo. Jesus passa, pois, despercebido. Mas, desde o 1º século aparecem os cristãos. São perseguidos: mas quem são eles?
            É interessante ver que pagãos, mais ou menos hostis, assumiram a fé cristã. O procurador romano Felix, sucessor de Pilatos, resume a contestação que Paulo opõe a seus irmãos judeus, assim: “Eles tinham com ele (Paulo) não sei quais contestações no tocante a religião deles referente a um certo Jesus, que morreu e que Paulo afirma estar vivo” (Atos 25,19). Que maravilhoso resumo da fé cristã!
            Pelo ano 110, um historiador chamado Plínio, o Jovem, escreve sobre pessoas que se reúnem “em um dia determinado, antes da aurora e cantam um hino ao Cristo, como a um Deus”. Um outro historiador, Tácito, explica como o imperador Nero, no ano de 64, pôde perseguir os ‘cristãos’ sem ser reprovado: “Este nome lhes vem de um tal Cristo, que foi executado sob o reinado de Tibério, pelo procurador Pôncio Pilatos”.
            As poucas menções de Cristo Jesus na literatura judaica ou pagã são suficientes a confirmar sua existência e orientam a atenção para o essencial: sua morte e a fé na sua ressurreição. Mas, quase tudo que sabemos da vida e do ensinamento de Jesus nos vem de fontes cristãs, especialmente dos quatro evangelhos. Daí a questão: estes documentos são confiáveis?

QUE VALOR SE DAR AOS EVANGELHOS?
            Sob a luz crua de um racionalismo estreito, os evangelhos não valem tanto assim. Sua afirmação central é inverificável: o Cristo ressuscitou! Teorema algum, experimentação alguma poderá prová-la, pois ela não resiste.
            Da ressurreição  -  incredível para um espírito ungido pela ciência e mesmo simplesmente prevenido  -  a crítica redutora se estende ao resto: os milagres, as declarações de Jesus sobre si mesmo, o anúncio de seu retorno, a promessa da eucaristia. Sobretudo referente aos relatos da sua infância.
            Mas é preciso ser bem pouco historiador para negar aos evangelhos um valor histórico. Talvez nenhum texto de toda a literatura mundial tenha jamais sido submetido a tantas análises, hipóteses e reconstruções. Isto já dura pelos últimos quatro séculos. E os evangelhos permanecem firmes sempre de pé. Doente algum resistiria a tantos tratamentos e remédios. Porque por atrás dos textos, existe o real.
            Os evangelhos são, aliás, um caso estranho: quatro relatos para o mesmo personagem. É demais para qualquer herói da Antiguidade. Nós não conhecemos Sócrates a não ser por dois de seus contemporâneos. Aqui, são quatro relatos, o de Mateus, de Marcos, de Lucas e o de João; referem-se à mesma pessoa apresentada entretanto sob luzes muito diferentes. Entre esses relatos, que distância entre uns e outros... mas, também que coerência! Na realidade, bem longe de se contradizerem, esses quatro relatos  -  que a Igreja não quis jamais reduzir autoritariamente à um único texto  -  se enriquecem mutuamente.
            No acontecimento de Cristo nos evangelhos, tal como os possuímos, as etapas intermediárias podem ser reconstituídas com toda verossimilhança: pregações e catequeses, coleções de palavras e de fatos, composição por autores mantendo cada um seu próprio ponto de vista, eventualmente o mesmo. Com aditivos posteriores. E tudo isso realizado em um tempo limitado: em algumas poucas dezenas de anos, num país perfeitamente conhecido e civilizado, onde se falavam várias línguas, sob o olhar dos Romanos e dos Judeus, que, uns e outros, denunciariam qualquer fraude. Todo esse trabalho de redação é também realizado num quadro de uma Igreja multicultural, algumas vezes sacudida, ameaçada, mas que desde o início levava a sério a mensagem escrita que ela havia recebido primeiro pela pregação daqueles que a haviam recebido do Cristo. Contar, explicar, interpretar: sim. Romancear: não!

OS FATOS VEM PRIMEIRO
            Os evangelho apresentam-se como uma história com sentido, como um testemunho dado a fatos que nos dizem respeito. Os evangelistas não desenvolvem idéias em que acreditavam serem certas. Eles testemunham fatos que lhes permitem afirmar: o Cristo veio; é Jesus. Ele é o Filho de Deus; foi morto, ressuscitou, vive hoje!
            São Paulo dirá, vinte e cinco anos depois da Páscoa: “Se o Cristo não ressuscitou, estamos totalmente no erro.” Ele não diz: ‘pouco importam os fatos; de qualquer modo, vale a pena se crer na Ressurreição’. Como os outros apóstolos, São Paulo é um espírito afirmativo. Ele se teria reconhecido numa frase de Lenine: “os fatos são cabeçudos” (a realidade nos derruba).
            Vós podeis pensar que os apóstolos e os evangelistas se enganaram sobre o sentido daquilo que narravam. Podeis dizer que Jesus iludiu-se a si próprio. Podeis mesmo estimar que tal doutrina é perigosa por ser até falsa. Ninguém pode (nem mesmo tentar) constranger quem quer que seja a crer como creram os apóstolos. Mas os apóstolos e evangelistas quiseram apenas nos transmitir fatos e palavras que deram nascimento à sua fé.
            Relatando o que Jesus fez, disse e viveu, os evangelistas querem testemunhar: Jesus, em quem eles reconheceram o Cristo, o Filho de Deus. O bom policial primeiro começa por recolher fatos e testemunhas dos fatos. Depois os interpreta. Frequentemente as investigações não concluem porque certos testemunhos foram excluídos logo de início: por parecerem não dignos de crédito. Entretanto, a testemunha bem que viu qualquer coisa: teria sido válido escutá-la mais. Não se deve pois se começar por duvidando dos evangelhos.

SABER LER
            Uma vez que esboçamos um paralelo com a investigação policial, continuemos. Dissemos que o bom policial devia interpretar os testemunhos. Todas as testemunhas não se explicam da mesma maneira. É necessário aprender a conhecê-las. Assim também, os especialistas das Escrituras (os ‘exegetas’, quer dizer em grego, “aqueles que explicam”) são um grande socorro quando nos mostram como os Evangelhos foram redigidos, quais eram os estilos da época, quem e em qual situação e em qual perspectiva cada autor compôs seu evangelho. Há os fatos e a maneira de narrá-los.
            Para o Antigo Testamento já estamos habituados a trabalhar essas distinções. Deus se revela como Criador nos capítulos do Gênesis. Ele nos pede de crer nele, e não nos “seis dias” ou na “costela de Adão”. Mesmo fora do caso particular dos primeiros capítulos do livro do Gênesis, os autores do Antigo Testamento escreveram conforme “gêneros literários” bem distintos. Uma lei não se escreve como um poema. Ora, a Bíblia contém leis e poemas. Ela usa de toda a variedade de expressão em vigor nas épocas e nos lugares em que ela tomou forma. Se o leitor contemporâneo não quiser se enganar sobre o que Escritura lhe ensina, ele deve evidentemente levar em consideração essa diversidade.
            Em certa medida, estes princípios devem ser aplicados aos evangelhos, em particular quando nos falam dos fins dos tempos. Mas os evangelistas nasceram num meio culturalmente muito evoluído: não são “lendas das cavernas”. Cuidemos de não tomar os evangelistas por primitivos! Não são!


OS LUGARES QUE JESUS FREQUENTOU
“Jesus Cristo, inscrito na história e situado numa geografia”

A infância
            Os sítios de Belém e de Nazaré estão bem atestados em nossos dias, um e outro. Um autor palestinense do 2º século, São Justino, testemunha em favor da tradição local: Jesus nasceu mesmo numa gruta próxima de Belém. Um século mais tarde, um visitante de valor, Orígenes, afirma que a população mostra a mangedoura dos animais (cavada na pedra). Simultaneamente, o lugar foi consagrado pelos Romanos ao culto de Adônis, depois do 2º século, com o objetivo de apagar a memória cristã. Contudo, a lembrança do lugar cristão é preservada exatamente por sua negação. Não houve qualquer hesitação sobre o lugar quando a mãe de Constantino (Sta. Helena) empreendeu construir aí uma basílica.
            Da antiga Nazaré, salvo o nome, tudo parecia ter desaparecido. Depois de uns quarenta anos de pesquisa arqueológica tudo mudou. Encontrados os restos da antiga vilazinha, foi a mesma marcada sob a gigantesca basílica moderna. As casas pela metade encravadas na rocha e contemporâneas de Jesus foram preservadas. Mais interessante para nós: apareceram inscrições cristãs por ocasião das escavações arqueológicas. Elas retrocedem até o 2º século. Uma dessas inscrições retranscreve as primeiras palavras da saudação do anjo a Maria: “Alegra-te, Maria”

O tempo do ministério
            O ministério de Jesus foi cumprido principalmente em duas regiões: na Galileia e na Judéia, ao redor de Jerusalém.
            Uma parte dos acontecimentos do Evangelho situa-se “na natureza”. Nesse caso, as localizações são aproximativas. Por exemplo, o lugar do batismo de Jesus ou o lugar onde ele alimentou a multidão multiplicando os pães. Assim também, o retiro no deserto ou a transfiguração no monte. Em contrapartida, os lugares construídos, malgrado todas as vicissitudes de vinte séculos, nos são, de mais a mais, melhor conhecidos. Inclusive a Jerusalém que Jesus conheceu.
            Na Galileia, Jesus freqüentou sobretudo uma pequena parte da beira do lago Genesaré (Tiberíades) e uma parte do interior próximo às suas bordas. As vilas de Coroazim, Betsaida, Magdala, estão hoje bem recuperadas. O sítio arqueológico foi pesquisado por um século seguido e os arqueólogos identificaram a casa de Pedro em Cafarnaum, ornada de ‘grafitis’, assim como na casa de Maria e na ‘oficina’ de José em Nazaré.
            Na Judéia, o oásis de Jericó não se deslocou depois de dois mil anos e a estrada de Jericó a Jerusalém está recuperada em longas distâncias. As vilas de Betânia, Betfagé, foram identificadas. Os limites de Jerusalém no tempo de Jesus são conhecidos. Os edifícios do Templo desapareceram, mas a esplanada não mudou e uma parte dos muros de arrimo foi conservada: é “o Muro” (da Lamentação) diante do qual os judeus hoje se reúnem para orar em substituição ao Templo que não mais existe. A piscina de Betesda e a de Siloé viram dois milagres de Cristo.

Paixão e Ressurreição
            O Monte das Oliveiras, o horto do Getzêmane e o vale do Cedron (mesmo se a torrente está atualmente canalizada no subterrâneo), situados fora da cidade propriamente dita, atravessaram as idades. Ao contrário, não há certeza sobre o lugar do Cenáculo. Sabe-se hoje, contudo, o lugar do palácio do grande sacerdote Caifás, ao qual Jesus foi levado à noite depois de sua prisão. Seu comparecimento diante de Pilatos teve lugar nas dependências da fortaleza “Antônia”, dos Romanos, atualmente bem identificada em vários de seus espaços.
            Os lugares mais certos são aqueles da crucificação e do túmulo. Eles foram conservados graças aos cuidados sacrílegos dos romanos quando pretenderam extirpar a memória cristã assim como a judaica na reconstrução de Jerusalém. Como em Belém, eles consagraram o lugar venerado pelos cristãos às suas próprias divindades. Durante o século 2º, a estátua de Vênus sobressaía sobre o Gólgota. Desde o 4º século, uma rotunda encerrou o Santo Sepulcro enquanto que o Gólgota ficava ao ar livre no pátio com pórticos que precedia a Rotunda.
            Hoje, o sítio está todo inteiro incluso em uma Basílica construída pelos Cruzados: por isso, é pouco perceptível, mas sondagens efetuadas nos anos 60 permitiram restituir o relevo primitivo: pode não corresponder às imagens que conhecemos mas concorda com os relatos evangélicos, lidos com realismo.

Para trabalhar:
1 – Como, na sua própria história, ouvistes falar de Cristo?
2 – Qual o lugar que os Evangelhos tem na vossa vida de fé?
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3  -  QUATRO OLHARES SOBRE JESUS  -  Os Evangelhos

O Evangelho é uma palavra concludente: Cristo ressuscitou!
O Evangelho é um acontecimento: Cristo venceu o pecado e a morte.
Os Evangelhos relatam uma única “boa-notícia”: cada um ao seu modo.
Não se deve omitir nenhum dos quatro, mesmo se alguém preferir este ou aquele outro.

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INTRODUÇÃO
            Não sabemos nada da aparência física de Jesus. Jesus teria 1,81m de altura, a menos que o Sudário de Turim não seja autêntico.
            Não sabemos nada também sobre seus caracteres. À época e, mais ainda depois, o propósito do Evangelho está muito distante de uma análise psicológica. A cólera de Jesus face ao “coração duro” de seus ouvintes, o gesto profético que propõe quando expulsa os mercadores do Templo, a emoção que manifestou diante do túmulo de Lázaro, sua própria angústia diante da Paixão, não são traços de caráter mas atitudes de um homem totalmente estranho ao Mal sob qualquer de suas formas.
            Evitemos, pois, de fazer um retrato do Cristo. Aqueles de outras épocas eram marcados de grande dignidade, mas um tanto frios: o Senhor passava, majestoso e dignava-se olhar sobre aqueles e aquelas que se prostravam aos seus pés. Os gravadores de imagens esforçavam-se para mostrar sua bondade, entretanto, se observarmos bem essas imagens ressaltam bem mais um Cristo distante.
            Em nossa época tudo mudou: escolheu acentuar tal ou qual traço “deste homem chamado Jesus” trazendo-o para mais perto de nós. Diversas interpretações do personagem de Jesus no teatro ou no cinema resultaram quase sempre numa redução inevitável. Ninguém pode reclamar a um autor ou a um ator de não conseguir igualar Jesus do modo como o descobrimos na fé, lentamente que seja.
            Assim, Jesus é apresentado por vezes como um tribuno, condutor de massas, um agitador social: outras vezes, como um contestador religioso, interpretando à sua maneira a Lei; outras, como um filósofo de direitos humanos ou o poeta da utopia. Certos autores buscaram sua “inspiração” na vida afetiva e até sexual de Jesus.
            O próprio dessas obras, quando são honestas, é de reenviar aos Evangelhos, reconhecendo que esse texto nos ultrapassa, mesmo do ponto de vista puramente humano.
            Cada um dos quatro evangelhos é bem típico. Para dar o gosto de ler os outros, escolheremos de cada um uma página característica.

SÃO MATEUS  -  JESUS REVELADOR DO REINO
            Um dos traços próprios do 1º Evangelho é de mostrar Jesus na sua atividade de ensino. Parece mesmo que a alternância de atos e palavras seja o ritmo básico da obra. O ensino é a função do rabino: Jesus é pois chamado de “Mestre”, até por aqueles que não crêem nele.
            Depois do batismo, os 40 dias no deserto e o chamado dos primeiros discípulos, São Mateus nos dá 3 capítulos de ensinamentos  -  o Sermão da Montanha (Mt 5-7). Jesus proclama que o Reino de Deus é accessível mediante uma conversão permanente.
            São Mateus é particularmente cuidadoso de anunciar o Evangelho aos judeus. Ele enfoca especialmente Jesus como o Messias, iniciador do Reino. Esta revelação é anunciada frequentemente por parábolas. Na literatura sapiencial e entre os rabinos de seu tempo, a parábola era utilizada para provocar a atenção do ouvinte e convidá-lo a refletir. O sentido das parábolas não é evidente. Jesus deve explicá-las a seus discípulos. Para a grande massa são, todavia, um meio de não afrontá-la, mas oferecendo-lhe matéria de reflexão.

            Um exemplo: os operários enviados à vinha (Mt 20,1-16).
            Se lermos esta parábola como uma pequena história “vivida”, a revolta dos operários da 1ª hora seria bem compreensível. E mais, sabemos que Jesus não gosta de envolver-se com problemas de dinheiro (Lc 12,13). É preciso, pois, buscar mais fundo.
            No Antigo Testamento, “a vinha do Senhor é a casa de Israel” (Is 5,1-7). Deus mesmo é o proprietário dela. Os membros do povo são responsáveis de fazer produzir frutos à vinha. Aqui, Jesus não os acusa de haver faltado mas anuncia que outros se beneficiarão também dos frutos da vinha.
            Se não se trata mais de um salário-hora mas do Reino, o dom da parte de Deus, só pode ser total. Cumulados deste dom, os primeiros deveriam alegrar-se de ver outros homens se beneficiarem igualmente. Mas a doença original  -  a inveja  -  perverteu seu olhar e seu coração.
            Conservando esta parábola no Evangelho vale para esclarecer não somente as relações dos pagãos (operários da 11ª hora) com os judeus (operários da 1ª hora). No interior da Igreja há sempre o risco de se comportar como operários da 1ª hora, invejosos, egocêntricos, desprezando-se os últimos chegados e desenvolvendo um orgulho até de se pretender ditar a Deus o modo como Ele deveria se conduzir.

SÃO MARCOS  -  JESUS CRISTO, FILHO DE DEUS
            “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”: são estas as primeiras palavras do evangelista São Marcos.
            Somos logo rendidos de entrada. O relato que seguirá não terá outro projeto, como se dirá também no 4º Evangelho (Jo 20,30-31).
            Marcos relata bem as palavras de Jesus, mas ele dá prioridade aos acontecimentos. Por isso alguns o preferem, por ser mais concreto nas narrações.

Um exemplo: Um dia de sábado, em Cafarnaum (Mc 1,29-39).
Este trecho encontra-se no início do Evangelho. Jesus acaba de pregar e de chamar os primeiros discípulos. Marcos escolhe para narrar uma jornada inteira de Jesus.
            Jesus mais primeiro à sinagoga, como todo judeu religioso faz no “shabbat”. É aí um dos lugares que escolhe para ensinar ao povo: decepção para os que imaginam um Jesus pregando sempre na natureza, longe das instituições de seu povo. O que atinge é a autoridade de sua palavra: ela não ilumina só o espírito, mas triunfa sobre o mal, que se tratasse de espíritos impuros ou de uma doença. A vida, a morte e a ressurreição do Cristo serão um combate incessante.
Jesus não passa despercebido. Sua fama se expande. Seus piores adversários (demônios) são os mais lúcidos: eles reconhecem nele um perigo por ver nele “o Santo de Deus”. Em São Marcos, Jesus esforça-se a diminuir o curso (ritmo) dos acontecimentos pela imposição do silêncio: senão ele não terá o tempo necessário a passar sua mensagem e de formar os apóstolos.
Desde o início, Jesus não está só. Os discípulos estão ao seu redor e é a eles que consagrará maior tempo. Conforme São Marcos o primeiro a ser chamado por Jesus é Simão que chamará de ‘Pedro’. Com os discípulos, Jesus fica na casa de Simão e André: é a primeira igreja, o núcleo da Igreja. Ele aí cura a sogra de Pedro que se porá logo a serviço da comunidade: “ela o servia”.
À noite seguinte, pela madrugada, Jesus deixa o grupo e afasta-se para orar. Jesus certamente participou das orações tradicionais de seu povo, ao menos quando se tratava dos Salmos, como da ceia Pascal (Mc 14,26). Exceto isto, Jesus não reza (orações formais) jamais com seus discípulos.
A oração de Jesus é composta principalmente de ações de graças e preces: duas atitudes que convêm bem ao Filho. Jamais ele pede perdão. A oração de Jesus nos põe em face do seu mistério: como nós ele reza porque a oração é a mais alta função do homem; mas não reza como nós, porque ele é Santo, o Filho: ele não precisa esforçar-se para voltar-se para o Pai. Os discípulos entrarão na sua oração quando tiverem recebido o Espírito Santo. Então como Jesus, eles poderão chamar o Pai “Abba” (Rm 8,15). E nós com eles.
O relato de 24 horas conclui-se  com duas frases complementares:
- “todos te procuram... e
- vamos adiante... porque para isto eu (saí) vim...”
A jornada de Cafarnaum anuncia o tempo quando o Cristo glorificado atrairá a si todos os homens (Jo 12,32) e os deslocamentos de Jesus revelam que ele “saiu” de Deus (Jo 16,27-28), para a salvação do mundo. Decididamente, São Marcos é um grande teólogo.

SÃO LUCAS: JESUS MISERICORDIOSO COM OS PECADORES
            O Evangelho segundo São Lucas tem a particularidade de ser somente a 1ª parte de uma obra em dois tomos (volumes): o Evangelho e os Atos do Apóstolos. O que faz a ligação entre esses dois momentos da história da salvação é o Espírito Santo. Eçe cobre Maria com sua sombra na Anunciação (Evg.) e manifesta-se aos discípulos reunidos com Maria no dia de Pentecostes (Atos). Esquecer que o Evangelho se prolonga nos Atos é desconhecer a intenção do autor. Mas esquecer os dois primeiros capítulos  -  “o Evangelho da Infância”  -  dificulta o entendimento, desde o início, da tonalidade própria de São Lucas.
            De todas as páginas do Evangelho de Lucas, a mais conhecida, mais tocante aos leitores é aquela da Natividade. Aí entendemos o acento dado por São Lucas: tudo se passa entre os pobres (pobres, sim; sem ‘miserabilismo’, que não cabe); o clima é de ‘maravilhamento’ e louvor; o acontecimento se passa na “cidade de Davi”, mas situado na cronologia profana porque aquele que nasce traz “sobre a terra a paz aos homens que Deus ama” Ele é a salvação e a misericórdia.

            Um exemplo: A conversão de Zaqueu (Lc 19,1-10).
            Este relato é próprio de Lucas. Como coletor de impostos, Zaqueu em nome dos Romanos: e é por isso quase excluído de Israel. E mais, ele é rico, enquanto São Lucas sublinha a preferência de Jesus pelos pobres. Porque a história termina bem, nós a lemos como se Zaqueu, desde o início estivesse animado de um secreto desejo de conversão. São Lucas não diz isto. Algumas páginas mais adiante, ele nos mostrará outro personagem que busca, ele também, ver Jesus: Herodes... (Lc 23,8-12).
            O que muda tudo, é o olhar de Jesus sobre Zaqueu (como Pedro após a negação: Lc 22,61), a palavra que lhe dirige, a ordem que lhe dá (“é preciso...”). Convertido por Jesus, ele vai imitar aquele que reconhece como seu Senhor: Zaqueu se volta para os pobres e repara o mal praticado com largueza. Assim Jesus operou um ato de salvação naquela casa. Que ninguém se engane: antes mesmo que Zaqueu busque ver quem era Jesus, é o “Filho do homem (que) veio buscar e salvar aquele que estava perdido”.
            Entre as duas partes deste relato, registra que todos murmuravam contra Jesus (o ‘murmúrio’ bíblico é sempre hostil) porque ele foi hospedar-se em casa de um pecador. É um dos aspectos mais paradoxais do Evangelho: o mesmo Jesus que chama à perfeição (ver Sermão da Montanha, Mt 5-7) se compromete com os pecadores, não para desculpá-los mas para perdoá-los. Proclamando por si mesmo o perdão dos pecados, Jesus exerce um poder propriamente divino. É em São Lucas que encontram-se as narrações das três parábolas da misericórdia (Lc 15).

SÃO JOÃO  -  JESUS, VINHO NOVO PARA A NOVA ALIANÇA
            O 4º Evangelho se distingue claramente dos três outros: a maioria dos eventos relatados lhe são próprios. O estilo é nitidamente diferente; certos diálogos ou discursos assumem uma amplitude bem mais considerável do que nos 3 primeiros evangelhos. As palavras diretas sobre a identidade de Jesus e sua relação com o Pai tomam o primeiro lugar enquanto nos 3 primeiros evangelhos Jesus se revela através de todo seu comportamento mas deixa de ordinário o ouvinte tirar a conclusão: este é o Filho de Deus. Ao contrário, em João, Jesus se designa a si mesmo, mais de quarenta vezes, como o “enviado do Pai”.
            O autor do 4º Evangelho é ordinariamente representado por uma águia, por significar que alça as alturas. O 19º século terminou por ver nesse texto uma meditação tardia de uma filosofia ou de um mistério afastado dos fatos que aconteceram “sob Pôncio Pilatos”. O século XX fez justiça ao 4º Evangelho. É certo, a história de sua redação permanece obscura. Qual é a relação entre o evangelho e o apóstolo João, irmão de Tiago? Entre o apóstolo e o discípulo bem-amado que aparece nos últimos capítulos do Evangelho? Pouco importa aqui, neste momento.
            O que importa e que desde já é estabelecido é que o 4º Evangelho, todo “espiritual” que ele seja, é profundamente realista. É sem dúvida ele o mais exato sobre a cronologia do ministério de Jesus. Igualmente, seu conhecimento da geografia não pode ser desconsiderada. Ele traz compreensão ao judaísmo do tempo de Jesus, hoje mais e melhor conhecido. Bem longe de se evadir no intelectual, ele valoriza elementos sensíveis: a água, o vento, a luz, o pão, a noite. Estas realidades materiais, carregadas de sentido espiritual, tornam-se símbolos nele.

            Um exemplo: O vinho novo, nas bodas de Cana (Jo 2,1-11).
            A cena é solene: Jesus está presente com sua mãe (que só reaparecerá depois na ao pé da Cruz) e seus discípulos. Ele aí realiza seu primeiro “sinal”: uma palavra escolhida por João para indicar os milagres. “Ele manifestou sua glória e seus discípulos creram nele”. Não se trata certamente de um simples gesto de amabilidade para com os hóspedes imprevidentes.
            A água das jarras era destinada às purificações dos judeus. Por Jesus ela é mudada, graças a fé de Maria e dos servidores, em vinho excelente e abundante. Este vinho correu nas núpcias, foi comentado. No diálogo com Maria é posta a questão “da minha hora”, quer hora de precipitar a Páscoa de Jesus.
            Tudo isto nos remete à aliança que Deus concluiu com Israel, como um esposo com a esposa que ama. Pelo dom de sua vida, por seu sangue derramado, o Filho veio renovar a aliança e expandi-la a todas as nações. Cana e o banquete das bodas “messiânicas” às quais Jesus faz alusão várias vezes nas parábolas do Reino (MT 8,11; 22,1).

  1. Qual a presença e o significado do Evangelho na minha vida diária?
  2. Como respondo na minha vida pessoal, familiar, social, etc.?
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4 - UMA CONSTANTE DO EVANGELHO:
     O ANÚNCIO DO REINO

            Conforme São Lucas, no início do livro dos Atos dos Apóstolos, Jesus se entretinha ainda com o assunto do Reino de Deus com seus discípulos quando lhes aparecia após sua ressurreição (At 1,3).
            É importante termos maior clareza sobre esta palavra e esta realidade.

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Quando São Mateus, no início de seu Evangelho, evoca em grandes traços a atividade de Jesus, ele a resume assim:
            “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.” (Mt 4,23)
Na outra extremidade de seu ministério, após sua ressurreição, São Lucas nos diz que, “durante quarenta dias, ele apareceu aos apóstolos e lhes falou do Reino de Deus” (Atos 1,3).
            Difícil de ler o Evangelho sem tentar compreender o que é o “Reino”. Tarefa um tanto mais árdua porque a maior parte de nossos contemporâneos não tem uma justa idéia nem muito positiva do significado de “realeza”.

COMO SEMPRE, CONSULTEMOS O ANTIGO TESTAMENTO
            Toda a Escritura aclama Deus como único rei verdadeiro: Ele reina sobre a criação; ele reina sobre os povos; ele reina particularmente sobre Israel, seu povo. Ele reina como um pai e um pastor, não como um tirano. Seu poder onde é exercido traz a justiça e a paz.
            Durante um tempo, Israel viveu sem rei com face humana. Mas dois séculos depois de Moisés, mil anos antes de Cristo, o povo suplicou a Deus de lhe dar um rei para ser “como os outros povos”. Os reis de Israel foram logo decepcionantes e a realeza cessou no 6º século antes de Cristo. Mas a esperança de um Messias, Filho de Davi, sobreviveu e mesmo aprofundou a questão.
            Qual seria o papel desse Messias? - Reinar não para ele mesmo, mas para que se instaure um “reino de vida e verdade, reino de graça e de santidade, reino de justiça, de amor e de paz” (Prefácio da Missa da festa de Cristo-Rei). Trata-se, pois, para o Messias de reinar para que Deus reine. É o desafio da 3ª tentação de Jesus no deserto. Satã lhe propõe de reinar ao seu modo: “O diabo tornou a levar Jesus, agora para um monte muito alto. Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e suas riquezas. E lhe disse: ‘Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar’. Jesus disse-lhe: ‘Vai-te, Satanás, porque a Escritura diz: ‘Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás’.” (Mt 4,8-10).

JESUS É UM REI MESMO ?
            É, pois, por duplo título que Jesus é rei! Ele é como “Messias” (ou Cristo). Mas o é, também porque ele é igual ao Pai. Sua realeza não é como aquela dos homens. Jamais ele reivindicou esse título. Após haver alimentado a multidão, a mesma, encontrando a solução cômoda, quer tomá-lo para fazer dele um rei: Jesus “foge” (Jo 6,15).
            Entretanto, os sábios foram guiados pela estrela para vir render homenagem ao “rei dos judeus” (Mt 2,2). Real já havia sido a Anunciação: “e seu reino não terá fim” (Lc 1,33). É como rei, filho de Davi, que ele é aclamado pelos cegos de Jericó e pelas multidões que o acolhem em Jerusalém no dia de Ramos (Mt 20,31 e 21,9). O asno e não o cavalo de guerra é a montadura deste rei messiânico (Mt 21,5).
            Quando Pilatos o interroga, Jesus reconhece ser rei. Logo em seguida, Jesus orienta olhar a seu Pai: sua realeza não vem “deste mundo”; ele veio para dar testemunho da verdade”. Entretanto, fosse por escárnio, seu título de “rei” será fixado sobre a cruz: sem render-se conta, Pilatos acertou (Jo 18,33-40; 19,14; 19,19-22). Igualmente os soldados que lhe teceram a coroa de espinhos.
            Até Pentecostes, os apóstolos permanecerão incorrigíveis: eles terão sempre em vista um reino no qual desejavam ocupar lugares (At 1,64). Jesus lhes responde: “Vós não sabeis o que pedis. Podeis beber a taça que eu beberei?” (Mt 20,22). Mas, no Gólgota, o criminoso arrependido (o “bom ladrão”) é atendido quando pede a Jesus dele se lembrar quando chegar ao ‘seu reino’.

COM JESUS, A REALEZA DE DEUS COMEÇA A SER EXERCIDA
            João Batista já dizia ser necessário a gente converter-se porque o Reino de Deus se aproximava. Com Jesus, este Reino começa efetivamente. Lendo o profeta Isaías na sinagoga de Nazaré, Jesus proclama que a Palavra se cumpre naquele momento por ele operar as obras do Messias (Lc 4,16-22). Quando Jesus está no meio dos homens, o Reino de Deus já está entre eles (Lc 17,21). Um dos sinais dados, é que os demônios recuam: “Se é pelo Espírito de Deus que expulso demônios, é porque que o Reino de Deus chegou até vós” (Mt 12,28).
            É possível, desde já, entrar no seu Reino. Alguns dele esquivam-se, embora estivessem melhor preparados (Mt 8,12 e 22,1-14). Ao contrário, os pobres e aqueles perseguidos pela justiça são proclamados “bem-aventurados”, “porque o Reino dos céus é deles” (Mt 5,3 e v.10). Estas duas bem-aventuranças, uma abre e a outra fecha a série, são anunciadas no ‘presente’.
            Ouvindo as palavras “Reino de Deus”, arriscamos de enganar-nos, pensando tratar-se de uma recompensa a receber “quando estivermos no céu”. Na linguagem bíblica é diferente: os “céus” são uma maneira de designar Deus sem nomeá-lo, costume que se expandiu no judaísmo no tempo de Jesus.
            O Reino é pois accessível, mas Jesus não esconde que seu ingresso custa caro. Custa mesmo tudo o que nós possuímos. Como uma pérola ou um tesouro inestimável, o Reino merece que vendamos tudo para tê-lo, estar nele (Mt 13,44-46). O rico, atravancado de bens, não transporá a porta (Lc 18,24-27). Ao contrário, a porta é aberta às crianças e àqueles que se lhe assemelham (Mt 18,14). Os que tudo deixaram para “procurar o Reino e sua justiça” receberão o resto todo de acréscimo (Mt 6,33).
            Não se deve confundir o espírito de infância com descuido ou negligência. Para entrar no Reino, não basta bons sentimentos: é preciso agir e “fazer a vontade do Pai” (Mt 7,21). Todo o Sermão da Montanha detalha a maneira como é preciso se comportar para ser cidadão do Reino (Mt 5,20).

O REINO: UMA NOVIDADE RADICAL
            Jesus conhecia bem João Batista. Ele foi encontrá-lo para receber de suas mãos o batismo. Sem que tenha sido interrogado ele faz o elogio de João Batista, que compara ao profeta Elias. Mas, logo depois, Jesus pronuncia esta estranha palavra:
                        “Eu garanto a vocês: de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino do Céu  é maior do que ele.”
            Os discípulos devem ter consciência: o Reino não é uma construção dos homens, mas um dom de Deus. Diante de uma tal graça tudo deve desaparecer (Lc 12,32).
O 4º Evangelho emprega pouco vocabulário do “Reino”. Com frequência a palavra “vida” lhe é equivalente. Nós a encontramos, entretanto num contexto maior: no encontro de Jesus com Nicodemos (Jo 3,3 e 5): “Em verdade, em verdade , eu te digo, a menos de nascer do alto, ninguém pode ver o Reino de Deus”.
É, pois, o batismo que nos faz entrar desde esta terra, no Reino de Deus: isto envolve um ato de vontade, uma decisão. Também porque Jesus deu a Pedro “as chaves do Reino dos céus” (Mt 16,19).

UM REINO EM CRESCIMENTO ATÉ O RETORNO DE CRISTO
            Este aspecto do Reino é anunciado por Jesus em parábolas bem conhecidas, reagrupadas no capítulo 13 de Mateus: o semeador (que espalha ‘a palavra do reino’), o bom grão e o joio, o grão de mostarda que se torna uma grande árvore, e uma pitada de levedura (fermento) que faz crescer uma grande massa de pão. Até o termo da história, o Reino crescerá no meio das realidades do mundo. É preciso não pretender guardá-lo ou conservá-lo em seu estado puro. Até o fim dos tempos, o Reino estará sob o regime de mistura. Esperando o retorno de Cristo, seus discípulos devem ficar vigilantes e fazendo frutificar os talentos que lhes foram confiados (Mt 25,1-30). Ao termo, o Cristo julgará soberanamente: Mt 25,31-46 separando as situações pro-Reino e anti-Reino. E todos aqueles que tiverem aberto seus corações e suas mãos aos seus irmãos pobres e necessitados ouvirão o seu chamado “Vinde benditos de meu Pai...”.
            Já hoje, o Cristo senta-se sobre a cadeira de seu Pai (Ap 3,21). Ele é o “Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Nós não o vemos mas somos chamados ao festim do qual a Eucaristia é o anúncio (Lc 13, 28-30). Nós somos convidados a rezar para que este Reino venha e para que consigam as intenções de Deus que são de nos introduzir no seu Reino.
            No julgamento, o Filho do Homem convidará a receber o Reino “em herança”. O termo “herança” volta com bastante freqüência em S.Paulo, na perspectiva da glória futura. Com efeito, o “Reino” não desapareceu da esperança cristã. Hoje mesmo, o Cristo é rei e prossegue seu combate vitorioso contra a Morte. Quando terá concluído isto, ele “entregará a realeza ao Pai... a fim de que Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,24-28).

O REINO EM TODAS AS SUAS DIMENSÕES
            Este ensinamento sobre o Reino é coerente? Nossos espíritos de ocidentais gostariam de refletir alguns aspectos:
            1 – O Reino de Deus está instaurado, onde o vemos? Sim ou não?
            2 – A realeza é exercida pelo Pai? Pelo Cristo? Pelo Espírito? Conosco?
            3 – Somos atores no Reino? Ou simples figurantes?

            O interesse deste pequeno estudo sobre o Reino de Deus é, talvez, justamente para mostrar que existe uma unidade na proposta de Jesus, dentro do conjunto do Projeto do Pai para o mundo, para a humanidade.
            1) No Cristo, já Deus reina. Mas, quais os obstáculos a seu Reino? E nós ainda o aguardamos! Não separemos a esperança da fé em ato.
            2) Cristo não está separado de seu Pai, nem separado de seus irmãos. Jesus não busca a sua glória. Ele quer a nossa para a glória de seu Pai. Aos justos, ele promete “brilhar como o sol” (Mt 19,28) e aos apóstolos de sentar-se sobre os 12 tronos” (ib.). Mas, ao final, é ao Pai que se atribui “toda a honra e toda a glória”.
            3) “Deus quer ter necessidade dos homens”, sua participação. O Cristo chama à sua messe. Mas não podemos nos pôr no lugar do Cristo. Não devemos nos comportar como os presunçosos e violentos que buscam apropriar-se do Reino ao seu feitio (Mt 11,12). “Agradou a vosso Pai de vos dar o Reino” (Lc 12,32). A gratuidade e a ação de graças devem ser sempre atitudes nossas.

ALGUMAS PISTAS MAIS CONCRETAS
            Depois do batismo de João, Jesus vai ao deserto, a seguir cruza o rio Jordão e entra novamente na terra de seu povo. Isto, por volta do ano 28 e Jesus está com 32 anos aproximadamente. Ele faz já aí uma primeira opção: não se dirige a Jerusalém nem permanece na Judéia. Vai diretamente para a Galileia. Traz consigo no coração um fogo de ardor: a necessidade de anunciar àquelas pessoas uma notícia que lhe a mais importante: Deus já está vindo libertar seu povo de tanto sofrimento e opressão. Sabe muito bem o que quer: irá atear “fogo” à terra anunciando a irrupção do Reino de Deus (Lc 12,49).
Será o profeta do Reino de Deus! Um profeta itinerante: de Nazaré vai para Cafarnaum, na casa de Simão e André, dois irmãos que conheceu no ambiente do Batista. As fontes cristãs dizem concisamente que Jesus “retornou à Galileia, deixou Nazaré e foi viver em Cafarnaum, junto ao mar” (Mt 4,12-13). Escolha intencional para um profeta itinerante, à beira do mar-lago rodeado de povoados e próximo à “via maris” – estrada de grande movimento das caravanas de comercio ligando o Oriente mais longínquo ao norte da África romana passando por Israel. Cafarnaum, povoado maior com cerca de 900-1500 habitantes era assim um lugar estratégico para o anúncio que Jesus iria realizar. Mas ele não se instala aí, abriga-se apenas quando de passagem (Lc 8,1). Sua maneira de atuar não parece casual. É o próprio Jesus que percorre as aldeias convidando todos a “entrar” no Reino de Deus que já começa a irromper em suas vidas quando aceito e com ele a salvação.
Mas, provavelmente, existe outra razão mais poderosa em seu coração. Nestas aldeias da Galileia está o povo mais pobre e deserdado, despojado de seu direito de desfrutar da terra doada por Deus: aqui Jesus encontra como em nenhum outro lugar o Israel mais enfermo e maltratado pelos poderosos. Nas grandes cidades, como Tiberíades, Séforis ou Jerusalém na Judéia, em compensação, vivem os que detêm o poder, junto com seus diferentes colaboradores: dirigentes, latifundiários, arrecadadores de impostos, etc. Eles não são os representantes do povo, mas seus dominadores, os causadores da miséria e da fome destas famílias. A implantação do Reino de Deus precisa começar ali onde o povo está mais humilhado. Essas pessoas pobres, famintas, aflitas porque vivem em insegurança são as “ovelhas perdidas” que melhor representam todos os abatidos e frágeis de Israel. Vê-se que Jesus tem muito claro isto, quando se estuda detidamente suas parábolas e atitudes públicas.
A boa notícia de Deus tem endereço: não pode provir do esplêndido palácio de Herodes Antipas em Tiberíades; nem das suntuosas ‘vilas’ de Séforis; nem do luxuoso bairro residencial das elites sacerdotais de Jerusalém. A semente do Reino só pode encontrar boa terra entre os pobres da Galileia.
            Já aí se revela uma forte pista para a compreensão do Reino de Deus: ele vai se gestando ali onde ocorrem coisas boas para os pobres, os fracos, os abandonados.
            Jesus surpreendeu a todos com esta declaração: “O reino de Deus já chegou!” Foi um impacto. Deus começa a fazer-se sentir em Jesus. Já se pode perceber sua presença salvadora.
            O reino se revela como uma verdadeira paixão para Jesus. Podemos dizer que a causa à qual Jesus dedicará daqui em diante seu tempo, suas forças e sua vida inteira. É, sem dúvida, o núcleo central de sua pregação, sua convicção mais profunda. Tudo o que ele diz e faz está a serviço de implantar na terra o Reino de Deus. A partir dessa realidade tudo adquire unidade e significado. O Reino de Deus é a chave para se captar o sentido que Jesus dá à sua vida e para entender o projeto que quer ver realizado na Galileia, no povo de Israel e, definitivamente, em todos os povos.
            Embora possa surpreender, Jesus só falou do Reino de Deus, não da “Igreja”.O “Reino” aparece 120 vezes nos evangelhos sinóticos; a “igreja” só aparece duas vezes (Mt 16,18 e 18,17), e muito provavelmente não tenha sido um termo empregado por Jesus.
            Jesus não ensina na Galileia uma doutrina religiosa para que seus ouvintes a aprendam bem para seguirem até os menores detalhes do judaísmo. Ninguém vê nele um rabi dedicado a explicar as tradições religiosas de Israel. Encontram-se com um profeta apaixonado por uma vida mais digna para todos (Jo 10,10), que procura com todas as suas forças fazer com que Deus seja acolhido e seu reino de Justiça e misericórdia vá se ampliando com alegria, e com ele, a vida, a justiça e a paz.
            Jesus destaca em suas parábolas a “compaixão” como um traço principal de Deus (Lc 15,11-31; Mt 18,18-35; 20,1-16); e esse é o comportamento de Jesus diante dos que sofrem, lhe “tremem as entranhas”: Mc 1,41; 6,24; Mt 9,36; 14,14; 15,32; 20,34; Lc 7,13.
            Para Jesus, Deus é o amigo da vida; donde a frase de Jesus: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Os pobres, os fracos, têm sorte, são privilegiados. Jesus não convida à resignação, mas à esperança. Todos precisam saber que Deus é o defensor dos pobres. Os marginalizados são seus preferidos: famílias que sobrevivem miseravelmente, pessoas que lutam para não perder suas terras e sua honra, crianças ameaçadas pela fome e pela doença, prostitutas e mendigos desprezados por todos, enfermos e endemoniados aos quais se nega o mínimo de dignidade, marginalizados pela sociedade e pela religião.
            O que esperava Jesus concretamente? Como imaginava a implantação do Reino de Deus? O que precisava acontecer para que, realmente, o Reino de Deus se concretizasse em algo bom para os pobres?
            Certamente o Reino de Deus não era para Jesus algo vago ou etéreo. A irrupção de Deus está pedindo uma mudança profunda. Se ele anuncia o Reino de Deus, é para despertar esperança e chamar todos a mudar sua maneira de pensar e de agir. É preciso “entrar” no Reino de Deus, deixar-se transformar por sua dinâmica e começar a construir a vida tal como Deus a quer.
            Jesus não explicou diretamente, portanto, o “Reino de Deus”, mas delineou seu perfil, através de seus gestos, suas atitudes, e suas palavras, particularmente por suas parábolas. Vale muito retomá-las e estudá-las à luz do que aqui se indicou. O Reino de Deus é comparado ao grão de mostarda (Mc 4,31-32); como a semente do agricultor (Mc 4,26-29); como o fermento que uma mulher mistura à massa do pão (Lc 13,20b-21; Mt 13,33b); um tesouro escondido num campo e descoberto (Mt 13,44); como uma pérola encontrada por um mercador que tudo vende para obtê-la (Mt 13, 45-46). Um reino de misericórdia, conforme a atitude do pai bom da parábola (Lc 15,11-32); como o patrão generoso da vinha a contratar e assalariar trabalhadores (Mt 20, 1-15); com a atitude misericordiosa de Deus diante dos dois homens que foram ao Templo (Lc 18,10-14b). O Reino de Deus requer das pessoas e sociedades quebrar resistências culturais e preconceituosas para atender samaritanamente à humanidade (Lc 10,30-36). Requer ser compassivo como o Pai é compassivo, como na parábola da “ovelha perdida” (Lc 15,4-6); e compreender o Reino de Deus na alegria da mulher que perdera uma moeda de dracma (Lc 15,8-9). Assim por diante, nos dediquemos a este tema que se encontra no coração de Jesus e no seu evangelho.

A URGÊNCIA DO REINO DE DEUS
            O Reino de Deus para nós é um apelo místico. Jesus nos lança esse apelo ainda hoje. Apelo, condição de vida eterna. Que já começa aqui, agora. Que não será imposto, mas há o convite para entrar já, ou não se entrará jamais.
            Para aquele que percebeu do que o Reino trata, nada pode prevalecer a ele, nenhum obstáculo deve interpor-se: para adquirir o tesouro ou a pérola, tudo merece ser vendido (Mt 13); toda a ocasião de desvio do Reino  -  o pecado  -   deve ser afastada (Mt 18,8-9). O Reino e sua justiça “aprimeira-se”, sobre tudo; sem cuidados, na Providência, o Pai mesmo assegurará o necessário (Mt 6,25-34). Mesmo o filho que devia enterrar seu pai, se ouvir o chamado de Cristo, deve “deixar os mortos enterrar seus mortos” (Mt 8,22). Palavras que os sábios interpretam e que os santos há mais de dois mil anos vivendo repetem. E ainda eles têm a audácia de mostrar que conseguiram viver.

Gustavo Graciano de Santa Teresa de Jesus, ocds
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Para trabalhar:
  1. Somente Deus conhece todas as características e contornos do Reino. Mas Jesus nos dá sinais e para isso se utiliza de parábolas, cita Isaías na sinagoga de Nazaré (Lc 4, 18-19). Pesquisemos Isaías, também as parábolas de Jesus! – Ao redor de nós, onde encontramos esses sinais indicativos da presença do Reino?
  2. Como rezamos a oração de Jesus reveladora desse Projeto, o “Pai-nosso”?
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5 - “E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?” (Mt 15,16)

Nós, cristãos e carmelitas teresianos, que fazemos parte da Igreja e nos reunimos em nossas comunidades paroquiais todos os domingos para a celebração eucarística, e também quinzenalmente com nossa comunidade do Carmelo, devemos ser os primeiros a perguntar-nos “quem é Jesus para mim?
Para responder, não será preciso procurar na memória alguma fórmula de catecismo aprendida na infância. Só pode responder a esta pergunta quem se encontrou com Ele, quem fez uma experiência pessoal dEle.
O encontro pessoal com Jesus, e, portanto, a resposta à sua pergunta, se dá através do nosso testemunho cristão. Esse testemunho dos cristãos desperta o interesse e a curiosidade nos não-cristãos, como uma ação missionária difusa, porém direta e pessoal. Atinge-os, sem dúvida.
A fórmula da Profissão de Fé, que os cristãos recitam juntos na santa missa, corre o risco de ser apenas uma expressão verbal. A fé da Igreja em Jesus deve manifestar-se na vida. Todo cristão tem a possibilidade de “confirmar” na fé os seus irmãos e ajudar os que ainda não têm fé a encontrar uma resposta.
O discípulo nasce do fascínio desse encontro com Cristo e se desenvolve pela força de atração que deve existir e permanece na experiência de comunhão dos discípulos de Jesus. “A Igreja cresce não por proselitismo, mas ‘por atração: como Cristo atrai tudo a Si com a força de seu amor’. A Igreja atrai quando vive em comunhão, pois os discípulos de Jesus serão reconhecidos se se amarem uns aos outros como Ele nos amou (cf. Rm, 12,4-13; Jo 13,34)” – DA 159.
O evangelista João nos deixou por escrito o impacto que a pessoa de Jesus produziu nos primeiros discípulos que o encontraram, João e André. Tudo começa com uma pergunta: ‘que procuram?’ (Jo 1,38). A essa pergunta seguiu um convite a viver uma experiência: ‘venham e vejam’ (Jo 1,39). Esta narração permanecerá na história como a síntese única do método cristão (DA 244).
Nosso itinerário formativo deve partir desse encontro pessoal, cada vez maior, com Jesus Cristo...
Identificar-se com Cristo e com sua missão constitui “um caminho longo que requer itinerários diversificados, respeitosos dos processos pessoais e dos ritmos comunitários, contínuos e graduais” (DA 281).
Nesse processo de formação do discípulo missionário aparecem cinco aspectos fundamentais, diversos “em cada etapa do caminho, mas que se complementam intimamente e se alimentam entre si” (DA 278). A saber:
- O encontro com Jesus Cristo, num processo que culmina na maturidade do discípulo;
- A conversão, resposta inicial de quem crê em Jesus Cristo e busca segui-Lo conscientemente (ib.);
- O discipulado como amadurecimento constante no conhecimento, no amor e seguimento de Jesus Mestre, quando também se aprofunda o mistério de sua pessoa, de seu exemplo e de sua doutrina, pela formação permanente e vida litúrgica e sacramental;
- A comunhão: “não pode existir vida cristã fora da comunidade...” (ib), como acontecia entre os primeiros cristãos. Essa comunhão na fé, na esperança e no amor deve estender-se também aos irmãos e irmãs de outras tradições cristãs;
- A missão nasce do impulso de compartilhar a própria experiência de salvação com outros... A missão deve acompanhar todo o processo, embora diversamente, conforme a própria vocação e o grau de amadurecimento humano e cristão de cada um (ib), tendo Maria como modelo do discípulo missionário.
Em suas atitudes o cristão expressa sua missão, tendo presente o contexto em que se encontra, deve revelar que está a serviço do Reino de Deus, a serviço da vida, sobretudo num tempo em que ela se encontra sujeita às mais diversas ameaças, que produzem situações desumanas incompatíveis com o Reino da Vida trazido por Cristo e centralidade de Sua pregação e de toda a Sua vida.
Assim, ele se põe atenta e inteiramente numa disposição aberta a todos os irmãos de humanidade por atitudes de serviço, diálogo, anúncio e testemunho de comunhãonessa ordem e sequência pedagógica relaciona-se com as pessoas com as quais tecem sua existência.

Não é bem isto o que dizem as nossas Constituições da Ocds?
  -  “Todos os homens são chamados a participar na caridade da única santidade de Deus”, do Deus que é Amor difusivo. (Proêmio Cc.)
“O seguimento de Cristo é o caminho para chegar à perfeição”.
  -  No Carmelo Teresiano “Cristo é o centro da vida e experiência cristãs. Os membros da Ordem são chamados a viver as exigências de seu seguimento em comunhão com ele, aceitando seus ensinamentos e entregando-se a sua pessoa. (Cc II,10)
Seguir Jesus é participar em sua missão salvífica de proclamar a Boa Nova e de instaurar o Reino de Deus (Mt 4,18-19).” Etc...
NO CENTRO DE TUDO, como cristãos, batizados, fiéis da Igreja, e carmelitas “somos chamados a viver ‘em obséquio de Jesus Cristo’ (Regra de Sto. Alberto, 2); e buscamos aprofundar esse compromisso cristão recebido e assumido no batismo, reforçado por nossas Promessas na Ordem Secular, cultivando
( 1 ) pela oração e a vida, ‘a amizade com Quem sabemos que nos ama’ (Sta. Teresa de Jesus, Vida 8,5)”;
( 2 ) vivendo em comunidades/grupos uma experiência de fraternidade; e
( 3 ) oferecendo um testemunho de Jesus Cristo pela vida e por ações, com espírito apostólico de serviço ao Reino de Deus e eventualmente desenvolvendo uma missão através de serviços eclesiais

Outras características nossas que desenvolvemos junto com aquelas centrais, acima esquematizadas, e que vivemos dentro da comunidade eclesial, são as seguintes:

SECULARIDADE
CARMELITAS SECULARES, CIDADÃOS DO REINO DE DEUS NO MEIO DO MUNDO
Devemos viver esse expressivo conjunto, conscientes do que nos advertem as Constituições:
“A luz da nova teologia do laicato da Igreja, os Seculares vivem essa pertença (à Ordem do Carmelo Descalço) a partir de uma clara identidade laical (Cc. I, 2).” Não percamos os traços e condições peculiares ao “século” que nos são próprias e não contradizem os valores evangélicos. Eles enriquecerão a evangelização e trarão frutos preciosos à Igreja.

EM TUDO, ATENTOS À PALAVRA DE DEUS
Os primeiros carmelitas na Terra Santa receberam na Regra de Sto.Alberto a recomendação do que já viviam (RC 9), de cuidarem de meditar a Lei do Senhor dia e noite (1Pd 4,7), também na Liturgia (RC 10; 13), como uma alimentação várias vezes ao dia (ib.7).
Para fortalecer essa identidade carmelitana deve-se buscar formação na Escritura (Cc. VI,35)

NO INTERIOR DO SEGUIMENTO DE CRISTO, MARIA, MÃE DE JESUS
MÃE DA IGREJA E NOSSA MÃE E IRMÃ
Mais uma vez nossas Constituições apontam como a Santa Virgem é para nós “modelo acabado dos discípulos do Senhor” (Cc. V,29-30; I,4): não apenas na fidelidade à escuta do Senhor, em sua atitude de serviço aos outros, porque meditava em seu coração tudo de Jesus, ou por sua recomendação que se fizesse tudo o que Jesus mandasse; mas ainda porque “a Virgem do Magnificat anuncia a ruptura com um mundo velho e anuncia o começo de uma história nova, na qual Deus derruba do trono os poderosos e exalta os pobres. Maria se põe do lado deles e proclama o modo de Deus atuar na história. Maria é para o Secular, um modelo de entrega total ao Reino de Deus”.

COMPROMISSO COM UMA FORMAÇÃO FUNDAMENTAL E PERMANENTE PARA VIVER O CARISMA E A ESPIRITUALIDADE DO CARMELO EM SEU SEGUIMENTO DE CRISTO, A SERVIÇO DA MISSÃO
“A formação cristã é a base sólida da formação carmelitana e espiritual” (Cc. VI, 32-33). “A formação teresiano-sãojuanista ajuda a desenvolver no secular uma maturidade humana, cristã e espiritual para o serviço da Igreja” (ib. 34).

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De Sta. Teresa de Jesus:

“Nós O amaríamos muito mais do que amamos, se melhor O conhecêssemos!” (CP 30,1-5)
“Por isso, peço aos que ainda não começaram que, por amor de Deus, não se privem de tanto bem. Não há o que temer, mas o que desejar!” (V 8,5)
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Gustavo Graciano de Sta.Teresa de Jesus, ocds
27/08/2014
Pasta: Formação Ocds
Arquivo: E vós quem dizeis que eu sou – Jesus, Reino, formaç discíp missio.doc

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